Um site pode ser uma obra de arte?
Sim, e já há uns trinta anos. Esta exploração passa pela diferença entre um site que mostra arte e um site que é a obra, pela net art e sua história inicial, pelo que artistas fazem hoje com o navegador e pelo que significa uma obra não ter horário de funcionamento, nem parede, nem tamanho fixo.

Um site pode ser uma obra de arte quando o próprio site é a obra: quando seu código, seus links, seu comportamento no navegador e o próprio ato de visitá-lo são o material, e não uma forma de mostrar algo que existe em outro lugar. O acervo on-line de um museu mostra pinturas; as pinturas estão penduradas em uma parede em algum lugar. Uma obra de net art não tem parede. Se você desligar o servidor dela, não sobra nada para ver.
Mostrar arte ou ser arte
A maioria dos sites ligados à arte são recipientes. O portfólio de uma artista, a loja de uma galeria ou um arquivo de fotografias apontam para objetos que existem sem a web. Tire a página do ar, e as obras continuam lá.
Uma obra web inverte essa relação. Seu endereço é ao mesmo tempo título e localização. Seu código não é uma gravação, mas um conjunto de instruções que o seu navegador executa toda vez que você chega, na tela que estiver usando naquele momento. O jeito como uma página carrega, quebra, rola ou responde a um clique pode ser justamente o que importa.

O que é net art
Arte na internet, net art ou arte web são os nomes mais comuns para a arte que usa a rede como meio, e não apenas como forma de distribuir imagens. Com ponto, net.art se refere de modo mais específico a um grupo informal de artistas de meados dos anos 1990, entre eles Vuk Ćosić, JODI, Alexei Shulgin, Heath Bunting e Olia Lialina, que trabalhavam com e-mail, HTML e os primeiros navegadores quando tudo isso ainda era novo e estranho.
Suas obras eram feitas muitas vezes das peças da própria web: hiperlinks, frames, campos de formulário, mensagens de erro, código-fonte. Tratavam o navegador não como uma janela neutra, mas como um material com hábitos próprios, que podiam ser forçados.
As primeiras obras que provaram isso

- jodi.org (a partir de 1995). A dupla holandesa e belga JODI, formada por Joan Heemskerk e Dirk Paesmans, publicou páginas que pareciam quebradas: caracteres que rolavam, código que piscava, layouts que pareciam ter desabado. O erro virava a imagem.
- My Boyfriend Came Back from the War (1996). Olia Lialina contou a história de um casal que se reencontra depois de uma guerra com imagens em preto e branco e fragmentos de texto. Cada clique divide a página em frames menores, até a tela virar um mosaico. Lialina a chamou de netfilm, um filme de rede.
- Form Art (1997). Alexei Shulgin compôs páginas com botões, caixas de seleção e campos de texto, a mobília cinza dos formulários da web. Como cada navegador desenha esses elementos do seu jeito, a obra muda com o programa que a exibe.
- The Shredder (1998). Mark Napier criou uma página que se faz passar por navegador: você informa um endereço, e ela tritura o código daquela página até virar uma composição abstrata de texto e imagens.
- Brandon (1998–1999). O projeto de Shu Lea Cheang sobre gênero e violência, que leva o nome de Brandon Teena, foi a primeira encomenda de uma obra web feita pelo Guggenheim, e o museu o restaurou anos depois.
As instituições vieram em seguida. O Whitney Museum encomenda obras web para o seu artport desde 2001, e entre 2016 e 2019 o Rhizome reapresentou cem obras na sua Net Art Anthology.
O navegador como meio criativo
O navegador é um material curioso. Você não controla o tamanho da tela, as fontes instaladas, a velocidade da conexão nem se quem visita está em um trem com o celular trincado. Quem faz arte para a web trabalha com essas incertezas, e não contra elas.
Hoje o navegador também consegue desenhar com a placa de vídeo, tocar e analisar som, e ler uma câmera ou um microfone quando a pessoa permite. Isso torna possíveis obras que se parecem menos com documentos e mais com instrumentos ou lugares: peças que rodam em tempo real e respondem de um jeito diferente a cada visitante. A seleção de sites interativos em que vale a pena se perder reúne muitas delas, de brinquedos a viagens lentas.
Interação, estrutura e participação
Em uma obra web, a estrutura faz parte do sentido. Um link é uma decisão; uma página que se divide quando você clica, como na peça de Lialina, transforma a navegação em montagem. A participação pode ser mínima, simplesmente chegar e rolar a página, ou pode dar forma à obra, como nas peças cujo conteúdo é criado pelos próprios visitantes.
Isso se relaciona com a pergunta geral sobre o que é arte interativa, mas não é a mesma coisa; o guia O que é arte interativa? trata disso por meio de instalações, museus e história. Aqui o foco é mais estreito: a própria web como meio, com seus endereços, navegadores e telas.
Sites sem propósito
Quase toda a web é construída para fazer alguma coisa: vender, informar, medir, convencer. Uma obra web tem o direito de não fazer nada disso. Pode ser um lugar para ficar um minuto, um experimento, uma piada sobre a interface ou uma pergunta sobre o que é uma página.
Essa liberdade não exclui um mercado. O artista holandês e brasileiro Rafaël Rozendaal faz sites, cada um em um único domínio, e em 2011 publicou o contrato que usa para vendê-los: quem coleciona é dono da obra, mas ela continua pública no seu endereço, com o nome do proprietário na barra de título do navegador. Propriedade e acesso livre convivem.
O Synfield é um exemplo contemporâneo do mesmo impulso: um conjunto de mundos de luz e som que se abrem em um endereço e só funcionam enquanto alguém os mantém abertos. Não há metas nem pontuações; o que ele oferece é um lugar para experimentar.
O que muda quando a arte vive em uma URL
- Acesso. Uma URL não tem horário nem ingresso. Qualquer pessoa que tenha o link pode chegar à obra de qualquer lugar com conexão.
- Contexto. Não há galeria para emoldurá-la. Você chega por uma busca, uma mensagem ou outra aba, muitas vezes sozinho e no meio de outra coisa.
- Variabilidade. Cada visita é uma execução em um hardware diferente. A artista não tem como saber exatamente o que você vê.
- Fragilidade. Servidores saem do ar, domínios expiram e tecnologias desaparecem: os navegadores abandonaram o Flash no fim de 2020, levando junto toda uma geração de obras web. Ferramentas de preservação como o oldweb.today, do Rhizome, que abre páginas em navegadores antigos emulados, existem justamente por isso.
Então, um site pode ser arte?
Sim, quando o site é a obra e não sua moldura. O que o torna arte não é a tecnologia, mas a intenção e a atenção que ele pede: uma página feita para ser vivida, não para ser usada. Por isso, a pergunta mais útil diante de qualquer site não é se ele parece artístico, mas o que sobra quando você tira o site.