Um site pode ser uma obra de arte?

Sim, e já há uns trinta anos. Esta exploração passa pela diferença entre um site que mostra arte e um site que é a obra, pela net art e sua história inicial, pelo que artistas fazem hoje com o navegador e pelo que significa uma obra não ter horário de funcionamento, nem parede, nem tamanho fixo.

Pontos de luz ligados por linhas finas em um céu escuro, como uma pequena rede, no mundo Constellation do Synfield.

Um site pode ser uma obra de arte quando o próprio site é a obra: quando seu código, seus links, seu comportamento no navegador e o próprio ato de visitá-lo são o material, e não uma forma de mostrar algo que existe em outro lugar. O acervo on-line de um museu mostra pinturas; as pinturas estão penduradas em uma parede em algum lugar. Uma obra de net art não tem parede. Se você desligar o servidor dela, não sobra nada para ver.

Mostrar arte ou ser arte

A maioria dos sites ligados à arte são recipientes. O portfólio de uma artista, a loja de uma galeria ou um arquivo de fotografias apontam para objetos que existem sem a web. Tire a página do ar, e as obras continuam lá.

Uma obra web inverte essa relação. Seu endereço é ao mesmo tempo título e localização. Seu código não é uma gravação, mas um conjunto de instruções que o seu navegador executa toda vez que você chega, na tela que estiver usando naquele momento. O jeito como uma página carrega, quebra, rola ou responde a um clique pode ser justamente o que importa.

Seis faixas empilhadas, cada uma com uma nota curta: o endereço, o servidor, o código, o navegador, a tela e quem visita.
Do que é feita uma obra pensada para a web. Cada camada pode ser material da artista, e cada uma pode mudar sem que ela interfira.

O que é net art

Arte na internet, net art ou arte web são os nomes mais comuns para a arte que usa a rede como meio, e não apenas como forma de distribuir imagens. Com ponto, net.art se refere de modo mais específico a um grupo informal de artistas de meados dos anos 1990, entre eles Vuk Ćosić, JODI, Alexei Shulgin, Heath Bunting e Olia Lialina, que trabalhavam com e-mail, HTML e os primeiros navegadores quando tudo isso ainda era novo e estranho.

Suas obras eram feitas muitas vezes das peças da própria web: hiperlinks, frames, campos de formulário, mensagens de erro, código-fonte. Tratavam o navegador não como uma janela neutra, mas como um material com hábitos próprios, que podiam ser forçados.

As primeiras obras que provaram isso

Linha do tempo de 1991 a 2020 com dez marcos: info.cern.ch, jodi.org, My Boyfriend Came Back from the War, Form Art, The Shredder, Brandon, artport, o Art Website Sales Contract, Net Art Anthology e o fim do Flash.
Dez momentos da web como meio artístico, por ano de lançamento ou de primeira publicação. A primeira página da web, no CERN em 1991, é um ponto de referência, não uma obra de arte.
  • jodi.org (a partir de 1995). A dupla holandesa e belga JODI, formada por Joan Heemskerk e Dirk Paesmans, publicou páginas que pareciam quebradas: caracteres que rolavam, código que piscava, layouts que pareciam ter desabado. O erro virava a imagem.
  • My Boyfriend Came Back from the War (1996). Olia Lialina contou a história de um casal que se reencontra depois de uma guerra com imagens em preto e branco e fragmentos de texto. Cada clique divide a página em frames menores, até a tela virar um mosaico. Lialina a chamou de netfilm, um filme de rede.
  • Form Art (1997). Alexei Shulgin compôs páginas com botões, caixas de seleção e campos de texto, a mobília cinza dos formulários da web. Como cada navegador desenha esses elementos do seu jeito, a obra muda com o programa que a exibe.
  • The Shredder (1998). Mark Napier criou uma página que se faz passar por navegador: você informa um endereço, e ela tritura o código daquela página até virar uma composição abstrata de texto e imagens.
  • Brandon (1998–1999). O projeto de Shu Lea Cheang sobre gênero e violência, que leva o nome de Brandon Teena, foi a primeira encomenda de uma obra web feita pelo Guggenheim, e o museu o restaurou anos depois.

As instituições vieram em seguida. O Whitney Museum encomenda obras web para o seu artport desde 2001, e entre 2016 e 2019 o Rhizome reapresentou cem obras na sua Net Art Anthology.

O navegador como meio criativo

O navegador é um material curioso. Você não controla o tamanho da tela, as fontes instaladas, a velocidade da conexão nem se quem visita está em um trem com o celular trincado. Quem faz arte para a web trabalha com essas incertezas, e não contra elas.

Hoje o navegador também consegue desenhar com a placa de vídeo, tocar e analisar som, e ler uma câmera ou um microfone quando a pessoa permite. Isso torna possíveis obras que se parecem menos com documentos e mais com instrumentos ou lugares: peças que rodam em tempo real e respondem de um jeito diferente a cada visitante. A seleção de sites interativos em que vale a pena se perder reúne muitas delas, de brinquedos a viagens lentas.

Interação, estrutura e participação

Em uma obra web, a estrutura faz parte do sentido. Um link é uma decisão; uma página que se divide quando você clica, como na peça de Lialina, transforma a navegação em montagem. A participação pode ser mínima, simplesmente chegar e rolar a página, ou pode dar forma à obra, como nas peças cujo conteúdo é criado pelos próprios visitantes.

Isso se relaciona com a pergunta geral sobre o que é arte interativa, mas não é a mesma coisa; o guia O que é arte interativa? trata disso por meio de instalações, museus e história. Aqui o foco é mais estreito: a própria web como meio, com seus endereços, navegadores e telas.

Sites sem propósito

Quase toda a web é construída para fazer alguma coisa: vender, informar, medir, convencer. Uma obra web tem o direito de não fazer nada disso. Pode ser um lugar para ficar um minuto, um experimento, uma piada sobre a interface ou uma pergunta sobre o que é uma página.

Essa liberdade não exclui um mercado. O artista holandês e brasileiro Rafaël Rozendaal faz sites, cada um em um único domínio, e em 2011 publicou o contrato que usa para vendê-los: quem coleciona é dono da obra, mas ela continua pública no seu endereço, com o nome do proprietário na barra de título do navegador. Propriedade e acesso livre convivem.

O Synfield é um exemplo contemporâneo do mesmo impulso: um conjunto de mundos de luz e som que se abrem em um endereço e só funcionam enquanto alguém os mantém abertos. Não há metas nem pontuações; o que ele oferece é um lugar para experimentar.

O que muda quando a arte vive em uma URL

  • Acesso. Uma URL não tem horário nem ingresso. Qualquer pessoa que tenha o link pode chegar à obra de qualquer lugar com conexão.
  • Contexto. Não há galeria para emoldurá-la. Você chega por uma busca, uma mensagem ou outra aba, muitas vezes sozinho e no meio de outra coisa.
  • Variabilidade. Cada visita é uma execução em um hardware diferente. A artista não tem como saber exatamente o que você vê.
  • Fragilidade. Servidores saem do ar, domínios expiram e tecnologias desaparecem: os navegadores abandonaram o Flash no fim de 2020, levando junto toda uma geração de obras web. Ferramentas de preservação como o oldweb.today, do Rhizome, que abre páginas em navegadores antigos emulados, existem justamente por isso.

Então, um site pode ser arte?

Sim, quando o site é a obra e não sua moldura. O que o torna arte não é a tecnologia, mas a intenção e a atenção que ele pede: uma página feita para ser vivida, não para ser usada. Por isso, a pergunta mais útil diante de qualquer site não é se ele parece artístico, mas o que sobra quando você tira o site.

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